No contexto das transformações tecnológicas e energéticas que marcam o século XXI, os chamados elementos de terras raras assumem protagonismo crescente no cenário geopolítico e econômico internacional. Compostos por um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica, tais minerais são empregados na fabricação de componentes de alto desempenho, utilizados em setores estratégicos como a indústria aeroespacial, tecnologias de energia renovável, eletrônica de precisão e mobilidade elétrica. A nomenclatura “raras” cumpre observar, não se refere à escassez absoluta desses elementos na crosta terrestre, mas à complexidade dos processos de extração, separação e beneficiamento.
Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgados em audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado Federal em setembro de 2025, o Brasil possui aproximadamente 23% das reservas mundiais conhecidas de elementos de terras raras, ficando atrás apenas da China. Ainda de acordo com informações veiculadas nessa audiência, o número de alvarás de pesquisa mineral emitidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM) passou de 40 em 2015 para 1.361 em 2024.
Apesar da expressiva disponibilidade geológica, a produção industrial brasileira de elementos estratégicos permanece limitada, em parte porque apenas 30% do território nacional possui mapeamento geológico adequado. Especialistas salientam a urgência de ampliar investimentos em infraestrutura laboratorial, tecnologias de separação mineral e formação de especialistas, observando que o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) dispõe de orçamento anual de cerca de US$ 3,3 milhões, enquanto centros similares nos Estados Unidos e no Japão operam com aproximadamente US$ 250 milhões. Nesse contexto, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destacou, em agosto de 2025, os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), como o INCT P.A.T.R.I.A. e o INCT MATERIA, este último com previsão de R$ 10,2 milhões em cinco anos, reunindo pesquisadores e universidades voltados a aplicações industriais, rotas tecnológicas e capacitação de recursos humanos.
No plano regional, merece destaque uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O estudo identificou indícios preliminares da ocorrência de elementos de terras raras em solos mato-grossenses. Embora ainda em estágio inicial, a investigação reforça a amplitude territorial do potencial brasileiro e a relevância de fomentar estudos geocientíficos em áreas não tradicionalmente inseridas no mapa mineral nacional.
A esse esforço soma-se a pesquisa vinculada à UFMT, iniciativa que visa avaliar o potencial de resíduos de minerações ativas em Mato Grosso como remineralizadores de solo, nos termos da Instrução Normativa nº 5/2016 do MAPA. O projeto reveste-se de especial importância, por articular ciência mineral, agronomia e sustentabilidade, buscando alternativas à elevada dependência brasileira de fertilizantes importados.
A investigação contempla a caracterização granulométrica e geoquímica de resíduos, bem como testes de eficiência agronômica, com vistas ao registro oficial de remineralizadores. Até o momento, não há produtos cadastrados dessa natureza em Mato Grosso, evidenciando o ineditismo e a relevância do estudo em curso. Dentre os resultados esperados, destaca-se a elaboração de um mapa georreferenciado com a localização e caracterização de empreendimentos minerários com potencial para fornecimento de agrominerais, instrumento valioso para formulação de políticas públicas e estratégias empresariais.
Dessa forma, duas agendas estratégicas se entrelaçam: a da soberania alimentar e a da autonomia mineral. Em um cenário global cada vez mais interconectado e voltado para a transição energética, o Brasil e, especialmente, Mato Grosso, pelo seu grande potencial, têm a oportunidade de se tornarem players importantes no mercado de terras raras e de fortalecerem sua posição estratégica na construção de um futuro melhor e tecnicamente avançado. Para tanto, é fundamental investir nas iniciativas de pesquisa, superar os entraves logísticos, tecnológicos e regulatórios, que ainda limitam a inserção tanto do país, quanto de Mato Grosso, nas cadeias globais de valor.



